O sigilo do evento pascal


“Secreta Ressurreição”; noite, solidão, ausência, ninguém, nenhuma testemunha: é PÁSCOA!

Nenhum traço a não ser uma pedra removida, uma cova vazia;

Nenhum sinal, a não ser o silêncio, o silêncio eloquente dos grandes inícios,

luz virginal de uma aurora sempre nova: é madrugada pascal!

“Sigilosa Ressurreição”, transparente como fonte cristalina; transbordante gratuidade-graciosidade;

“discreta cáritas” do Amor que se aproxima sem jamais possuir;

logo, porém, que se deixa sentir à brasa que acende o coração, derruba as dúvidas,

suscita esperança e aura de liberdade.

Luminosa e máxima pobreza: nada para ver, tudo para crer.

O Ressuscitado, aliás, não tem nada para mostrar senão suas chagas cicatrizadas

como manifestação da glória de Deus.

As aparições de Jesus são tão discretas, destituídas de triunfo, imunes de revanche sobre a Cruz

que ninguém o reconhece.

“Misteriosa Ressurreição” que apenas se deixa decifrar no íntimo de uma experiência de despojamento,

onde há lugar para uma nova visão dos acontecimentos e de sua interpretação.

“Secreta Ressurreição” porque ela não se impõe a partir do exterior, como um acontecimento

que todos podem constatar. Ela é uma fonte de vida que nos atinge no interior.

RESSURREIÇÃO: o amanhecer de uma nova humanidade

“Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro...”

“Faz escuro, mas eu canto” (Thiago de Mello)

Ainda não é dia, mas amanhece um novo tempo; ressoam como ditas para nós as palavras do profeta Isaías: “Algo novo está nascendo; não o vês?” (43,19). É tempo de esperança e de saída de nossos esconderijos. Páscoa é movimento: é ainda de madrugada mas podemos sentir o movimento das pessoas no evangelho de hoje: Maria Madalena corre, Pedro também, João se adianta... até a pedra do sepulcro se move. Não é pressa, nem ansiedade, tão próprios de nosso tempo. É outra coisa, algo que impulsiona a partir de dentro. É vida que quer tocar tudo e oferecer uma mudança, uma possibilidade nova; é vida que se abre para a luz, como no início da Criação. É a vida do Vivente que abre caminho.

“A pedra da entrada do túmulo é removida” e amanhece uma nova consciência planetária, uma nova espiritualidade, uma nova maneira de viver o mistério de Deus, uma concepção novidosa do ser humano, uma nova mentalidade, uma nova maneira de ser Igreja...

Amanhece um novo mundo, heterogêneo, descentralizado; um novo humanismo, um novo movimento cultural. Brota um novo despertar a partir de uma maior lucidez e consciência dos problemas mundiais e uma escuta afinada diante do clamor unânime de que outro mundo é possível.

Pe. Adroaldo Palaoro, SJ.

Orientador dos Exercícios Espirituais.

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